Ponte da Barca

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sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

À descoberta de Fernando Pessoa

Descobre poemas de Fernando Pessoa (ortónimo e heterónimos) de que gostes. Coloca-os na caixa de comentários!

12 comentários:

  1. Passei toda a noite, sem dormir, vendo, sem espaço, a figura dela,

    Passei toda a noite, sem dormir, vendo, sem espaço, a figura dela,
    E vendo-a sempre de maneiras diferentes do que a encontro a ela.
    Faço pensamentos com a recordação do que ela é quando me fala,
    E em cada pensamento ela varia de acordo com a sua semelhança.
    Amar é pensar.
    E eu quase que me esqueço de sentir só de pensar nela.
    Não sei bem o que quero, mesmo dela, e eu não penso senão nela.
    Tenho uma grande distracção animada.
    Quando desejo encontrá-la
    Quase que prefiro não a encontrar,
    Para não ter que a deixar depois.
    Não sei bem o que quero, nem quero saber o que quero. Quero só Pensar nela.
    Não peço nada a ninguém, nem a ela, senão pensar.

    Alberto Caeiro

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  2. Tenho pena e não respondo

    Tenho pena e não respondo.
    Mas não tenho culpa enfim
    De que em mim não correspondo
    Ao outro que amaste em mim.

    Cada um é muita gente.
    Para mim sou quem me penso,
    Para outros --- cada um sente
    O que julga, e é um erro imenso.

    Ah, deixem-me sossegar.
    Não me sonhem nem me outrem.
    Se eu não me quero encontrar,
    Quererei que outros me encontrem?

    Fernando Pessoa

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  3. Autopsicografia

    O poeta é um fingidor.
    Finge tão completamente
    Que chega a fingir que é dor
    A dor que deveras sente.

    E os que lêem o que escreve,
    Na dor lida sentem bem,
    Não as duas que ele teve,
    Mas só a que eles não têm.

    E assim nas calhas de roda
    Gira, a entreter a razão,
    Esse comboio de corda
    Que se chama coração.

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  4. Falas de civilização...

    Falas de civilização, e de não dever ser,
    Ou de não dever ser assim.
    Dizes que todos sofrem, ou a maioria de todos,
    Com as coisas humanas postas desta maneira,
    Dizes que se fossem diferentes, sofreriam menos.
    Dizes que se fossem como tu queres, seriam melhor.
    Escuto sem te ouvir.
    Para que te quereria eu ouvir?
    Ouvindo-te nada ficaria sabendo.
    Se as coisas fossem diferentes, seriam diferentes: eis tudo.
    Se as coisas fossem como tu queres, seriam só como tu queres.
    Ai de ti e de todos que levam a vida
    A querer inventar a máquina de fazer felicidade!

    Alberto Caeiro

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  5. Não, não é cansaço...
    É uma quantidade de desilusão
    Que se me entranha na espécie de pensar,
    É um domingo às avessas
    Do sentimento,
    Um feriado passado no abismo...
    Não, cansaço não é...
    É eu estar existindo
    E também o mundo,
    Com tudo aquilo que contém,
    Com tudo aquilo que nele se desdobra
    E afinal é a mesma coisa variada em cópias iguais.
    Não. Cansaço porquê?
    É uma sensação abstracta
    Da vida concreta —
    Qualquer coisa como um grito
    Por dar,
    Qualquer coisa como uma angústia
    Por sofrer,
    Ou por sofrer completamente,
    Ou por sofrer como...
    Sim, ou por sofrer como...
    Isso mesmo, como...
    Como quê?...
    Se soubesse, não haveria em mim este falso cansaço.
    (Ai, cegos que cantam na rua,
    Que formidável realejo
    Que é a guitarra de um, e a viola do outro, e a voz dela!)
    Porque oiço, vejo.
    Confesso: é cansaço!...

    Álvaro de Campos

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  6. A morte é a curva da estrada,
    Morrer é só não ser visto.
    Se escuto, eu te oiço a passada
    Existir como eu existo.
    A terra é feita de céu.
    A mentira não tem ninho.
    Nunca ninguém se perdeu.
    Tudo é verdade e caminho.

    Fernando Pessoa

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  7. Uns, com os olhos postos no passado,
    Vêem o que não vêem; outros, fitos
    Os mesmos olhos no futuro, vêem
    O que não pode ver-se.

    Porque tão longe ir pôr o que está perto —
    A segurança nossa? Este é o dia,
    Esta é a hora, este o momento, isto
    É quem somos, e é tudo.

    Perene flui a interminável hora
    Que nos confessa nulos. No mesmo hausto
    Em que vivemos, morreremos. Colhe
    O dia, porque és ele.

    Ricardo Reis

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  8. Da minha aldeia (...)

    Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver do Universo...
    Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer,
    Porque eu sou do tamanho do que vejo
    E não do tamanho da minha altura...

    Nas cidades a vida é mais pequena
    Que aqui na minha casa no cimo deste outeiro.

    Na cidade as grandes casas fecham a vista à chave,
    Escondem o horizonte, empurram o nosso olhar para longe de todo o céu,
    Tornam-nos pequenos porque nos tiram o que os nossos olhos nos podem dar,
    E tornam-nos pobres porque a nossa única riqueza é ver.

    Alberto Caeiro

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  9. Poema

    Todas as cartas de amor são
    Ridículas.
    Não seriam cartas de amor se não fossem
    Ridículas.

    Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
    Como as outras,
    Ridículas.

    As cartas de amor, se há amor,
    Têm de ser
    Ridículas.

    Mas, afinal,
    Só as criaturas que nunca escreveram
    Cartas de amor
    É que são
    Ridículas.

    Quem me dera no tempo em que escrevia
    Sem dar por isso
    Cartas de amor
    Ridículas.

    A verdade é que hoje
    As minhas memórias
    Dessas cartas de amor
    É que são
    Ridículas.

    (Todas as palavras esdrúxulas,
    Como os sentimentos esdrúxulos,
    São naturalmente
    Ridículas).

    Álvaro de Campos

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  10. A espantosa realidade das coisas

    A espantosa realidade das coisas
    É a minha descoberta de todos os dias.
    Cada coisa é o que é,
    E é difícil explicar a alguém quanto isso me alegra,
    E quanto isso me basta.

    Basta existir para se ser completo.

    Tenho escrito bastantes poemas.
    Hei de escrever muitos mais, naturalmente.

    Cada poema meu diz isto,
    E todos os meus poemas são diferentes,
    Porque cada cousa que há é uma maneira de dizer isto.

    Às vezes ponho-me a olhar para uma pedra.
    Não me ponho a pensar se ela sente.
    Não me perco a chamar-lhe minha irmã.
    Mas gosto dela por ela ser uma pedra,
    Gosto dela porque ela não sente nada.
    Gosto dela porque ela não tem parentesco nenhum comigo.

    Outras vezes oiço passar o vento,
    E acho que só para ouvir passar o vento vale a pena ter nascido.
    Eu não sei o que é que os outros pensarão lendo isto;
    Mas acho que isto deve estar bem porque o penso sem esforço,
    Nem ideia de outras pessoas a ouvir-me pensar;
    Porque o penso sem pensamentos
    Porque o digo como as minhas palavras o dizem.

    Uma vez chamaram-me poeta materialista,
    E eu admirei-me, porque não julgava
    Que se me pudesse chamar qualquer cousa.
    Eu nem sequer sou poeta: vejo.
    Se o que escrevo tem valor, não sou eu que o tenho:
    O valor está ali, nos meus versos.
    Tudo isso é absolutamente independente da minha vontade.

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  11. Micaela Fernandes disse:

    É talvez o último dia da minha vida.


    É talvez o último dia da minha vida.
    Saudei o Sol, levantando a mão direita,
    Mas não o saudei, dizendo-lhe adeus,
    Fiz sinal de gostar de o ver antes: mais nada.

    Alberto Caeiro

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  12. Vaga, no azul amplo solta


    Vaga, no azul amplo solta,
    Vai uma nuvem errando.
    O meu passado não volta.
    Não é o que estou chorando.

    O que choro é diferente.
    Entra mais na alma da alma.
    Mas como, no céu sem gente,
    A nuvem flutua calma,

    E isto lembra uma tristeza
    E a lembrança é que entristece,
    Dou à saudade a riqueza
    De emoção que a hora tece.

    Mas, em verdade, o que chora
    Na minha amarga ansiedade
    Mais alto que a nuvem mora,
    Está para além da saudade.

    Não sei o que é nem consinto
    À alma que o saiba bem
    Visto da dor com que minto
    Dor que a minha alma tem.

    Fernando Pessoa

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