Ponte da Barca

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sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Álvaro de Campos, poema "Tabacaria"

Tece um comentário a este famosíssimo poema de Campos, cuja primeira estrofe te apresento!

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

                                                    Álvaro de Campos, Tabacaria


P.S.: Para leres o poema na íntegra, clica aqui

2 comentários:

  1. Este poema insere-se na terceira fase de Álvaro de Campos apresenta uma estrutura temática e linguística muito diferentes dos poemas relacionados com as outras fases de Campos, tais como as suas grandes odes. A "Tabacaria" apresenta um ritmo monocórdico em contraposição, a título de exemplo, com o ritmo acelerado das odes.A terceira fase de Campos partilha muitas linhas temáticas com Fernando Pessoa ortónimo, como a nostalgia pela infância, o tédio, a frustração, a angústia em relação à vida, entre outras. Neste poema Campos (e)leva ao máximo o factor oposição, ele contrapõe o real e o imaginário, o consciente e o inconsciente. Neste poema existe uma retrospecção da sua vida, ou melhor do fracasso que a sua vida tem sido, ele tem a necessidade de analisar a sua existência face à existência da Tabacaria como objecto real e imutável. Pelos versos de Álvaro de Campos podemos ler Fernando Pessoa ortónimo, pois ele é de facto um génio, no entanto também é um vencido, um falhado que tem plena consciência (talvez até demais...) de que nunca alcançará a verdadeira e derradeira Felicidade.

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  2. O poema "Tabacaria" representa muito bem a fase intimista de Álvaro de Campos, onde se verifica, principalmente neste excerto, angústia existencial, que se reflecte num conflito com a realidade e com ele próprio, levando assim a uma aniquilação pessoal. Também, no último verso da do enunciado, apresenta-se uma frustração total relacionada com a incapacidade de realização pessoal ( «…tenho em mim todos os sonhos do mundo.» ), criando no “eu” poético sentimentos de cansaço, desilusão, revolta e desânimo, relevando-se vazio e incompreendido.
    A linguagem verifica-se muito mais moderada em relação às fases anteriores. Álvaro de Campos torna-se um poeta inteiramente desiludido com a vida, e em alguns dos seus poemas ganham um ritmo intencionalmente mais reduzido e introspectivo, em clara contraposição, como por exemplo, com as grandes Odes do seu período futurista.
    Os simbolismos presentes no poema revelam a dimensão da solidão e necessidade de análise da sua própria existência face à vastidão do Universo exterior. Em suma, demostram a sua infelicidade.

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